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As Origens da Associação de Futebol do Porto (1912)

 

No Porto, no final do século XIX, a presença de uma comunidade britânica forte e bem integrada na sociedade local contribuiu para que o futebol ganhasse o seu espaço entre as atividades desportivas já implantadas, como o ciclismo e a vela. Regressados de Inglaterra, onde estudaram, José Beires Valle e os irmãos Azevedo Campos trouxeram as bolas e as regras simples de um jogo. Terá sido então que estes jovens, juntamente com os ingleses Rumsey e Guilherme Andresen e com António Nicolau de Almeida, deram, no Porto, o pontapé de saída para um desporto que se iria tornar cada vez mais popular na cidade e no norte do paí - o futebol.O entusiasmo pelo exercício dessa atividade desportiva levou António Nicolau de Almeida, então com 20 anos, a fundar o Football Club do Porto, em 1893, que abandonaria alguns anos depois, incentivando José Monteiro da Costa a continuar o percurso do clube portista. A ele se deve a escolha, em inícios do século XX, do azul e branco da então bandeira nacional como as cores do clube.

Primeiros Estatutos da Associação de Futebol do Porto


No ano seguinte, em 2 de março de 1894, inserido nas comemorações oficiais do V Centenário do Nascimento do Infante D. Henrique e sob o patrocínio de D. Carlos, que ofereceu a Taça do Rei, realizou-se, no Campo Alegre, um jogo que foi ganho pela equipa de Lisboa . De acordo com a imprensa portuense, D. Carlos, reconhecido entusiasta desta modalidade desportiva, e D. Amélia assistiram à parte final da partida. Entre 1894, ano em que se disputou, no Porto, a Taça do Rei, e 1912, ano da fundação da Associação Futebol do Porto, a prática do futebol esmoreceu, ressentida da instabilidade política, económica, financeira e social que Portugal então atravessou. A Monarquia, fortemente ameaçada pela crescente propagação das ideias republicanas, procurava a todo o custo evitar o seu próprio fim que, sobretudo após o Regicídio, em 1908, se mostrava inevitável. Em 5 de outubro de 1910, a República foi proclamada em Lisboa. Abria-se então um novo capítulo na história nacional. Após anos de confronto político, a esperança renascia para muitos portugueses - acreditava-se que, finalmente, a regeneração do povo português e a construção de um país novo era possível.

António Nicolau de Almeida, um dos introdutores do Futebol na cidade do Porto (década de 1890)


Contudo, para que o futebol ganhasse espaço na sociedade portuguesa para crescer e se popularizar como uma ativa e galvanizadora modalidade desportiva não bastava mudar o país. Era também preciso mudar a forma como se jogava, dissociando-o da imagem de violência que, nos anos finais do século XIX e nos primeiros anos do seguinte, o marcara negativamente, definindo-se as regras e organizando-se ao nível nacional, mas também regional, a sua prática. Na capital do país, após uma primeira experiência com a Liga de Football Association, responsável pela organização dos jogos nas épocas 1906-1907 e 1907-1908, foi criada, em 23 de Setembro de 1910, a Associação de Futebol de Lisboa. Dois anos depois, em1912, por iniciativa de dois clubes da cidade, o Futebol Clube do Porto e o Leixões Sport Club, foi fundada a Associação de Futebol do Porto. Um marco importante para a promoção e institucionalização do futebol no Porto e na região norte do País, que continua na atualidade. Era a concretização de uma ideia surgida no ano anterior.

Equipa do F.C. Porto que venceu a Taça Monteiro da Costa (1914)


Impossibilitado em 1911 de participar, em Lisboa, no campeonato organizado pela Liga Portuguesa de Futebol, devido ao facto de, a nível regional, não existir uma associação de futebol à semelhança das que existiam já na capital e em Portalegre, o Futebol Clube do Porto decidiu, após ter ganho a primeira edi­ ção da Taça Monteiro da Costa - vitória sobre o Boavista Futebol Clube por duas bolas a uma, em jogo realizado no Campo da Rua Antero de Quental, com a imprensa da época a relatar o enorme entusiasmo gerado pela partida, tomara iniciativa da formação de uma "associação que procurasse, não só a confraternização interclubes que é um dos melhores fatores do progresso do desporto, mas também elaboras­ se todos os regulamentos necessários a dar autoridade moral e oficial aos concursos ou jogos que de futuro venham a realizar-se".

José Monteiro da Costa personalidade impulsionadora do F.C. Porto e uma das primeiras equipas do Boavista F.C. (1912)

 

Ata de instalação da Associação de Futebol do Porto (1912)

Aos 3 de agosto de1912 reuniram na secretaria do Futebol Clube do Porto, à Rua Antero de Quental, número 358, dois delegados do Leixões Sport Club, senhores José António Afonso Barbosa e Hernâni Soares da Rocha e dois do Futebol Clube do Porto, senhores João António Gonçalves da Cal e Joaquim Pereira da Silva, a convite deste último clube, a fim de discutirem as vantagens que adviriam para o desenvolvimento do jogo de futebol no norte de Portugal, da federação de todos os clubes, formando-se uma Associação que procurasse, não só a confraternização interclubes que é um dos melhores fatores do progresso do desporto, mas também elaborasse todos os regulamentos necessários a dar autoridade moral e oficial aos concursos ou jogos que de futuro venham a realizar-se. Todos foram unânimes em que a Associação se formasse e lamentavam que os outros clubes se não fizessem representar para desde já se tomarem resoluções definitivas sobre o assunto. Ficou resolvido por isso que se oficiasse novamente aos clubes não representados a convidá-los de novo a comparecerem a uma nova reunião que foi firmada para o dia dez do mês corrente.

 

José António Afonso Barbosa, Hernâni Soares da Rocha, João António Gonçalves da Cal e Joaquim Pereira da Silva


Primeira ata da Associação de Futebol do Porto (1912)  

Aos 10 de agosto de 1912 reuniram na secretaria do Futebol Clube do Porto, à Rua Antero de Quental, os senhores Hernâni Soares da Rocha e Guilherme Rodrigues Costa; Joaquim Pereira da Silva e João António Gonçalves da Cal, respetivamente representantes do Leixões Sport Club e do Futebol Clube do Porto, a fim de prosseguirem nos trabalhos encetados na sessão anterior para a fundação, nesta cidade, de uma Associação de Futebol. Foram lidas as cópias dos ofícios enviados ao Oporto Cricket Club e ao Boavista Futebol Clube insistindo para que se fizessem representar em futuras reuniões, conforme com o que fora resolvido em sessão anterior. Foi resolvido abrir desde já a inscrição para clubes e sócios que desejem filiar-se na Associação. Foram considerados como filiados desde logo os clubes que mandaram a esta reunião os seus delegados, Leixões Sport Clube Futebol Clube do Porto. Foram recebidas as inscrições dos senhores Eduardo Coquet, Camilo Moniz de Matos, António Manuel Rodrigues de Oliveira.

Atas das duas primeiras reuniões de Direção da AF Porto (1913)

 

Embora a imprensa periódica do Porto, pouco atenta, ainda, em 1912, às atividades desportivas, não faça referência à sua criação, a verdade é que - e os anos seguintes rapidamente o iriam demonstrar, com a fundação da Associação de Futebol do Porto foi dado um passo decisivo para que o futebol se viesse a transformar na grande modalidade desportiva da região, tornando-a reconhecida a nível nacional pelo valor dos seus clubes e dos seus atletas. Foi o início de um caminho que continua a ser trilhado nos dias de hoje, ao serviço do futebol, dos seus praticantes e do seu público.


No ano seguinte ao da sua fundação, a Associação constituiu a sua primeira direção e, por gentileza do Futebol Clube do Porto, clube fundador, instalou-se provisoriamente na sua sede, localizada na Rua Antero de Quental, ocupando uma parte do primeiro andar. Sob a presidência de João Leite Faria, exercendo as funções de secretário, José Corte Real, tesoureiro, António Martins Ribeiro - todos eles dirigentes do Futebol Clube do Porto , e de Artur Jorge Martinez, vogal ligado ao Leixões Sport Club, foi lavra­ da uma única ata em 1913, no dia 21de outubro, na qual se refere a escolha das cores da cidade, branca e verde, para o equipamento da equipa representativa da Associação de Futebol do Por­ to e a decisão de dar conhecimento oficial da sua existência à congénere lisboeta. Essencial para o exercício das funções a que se tinha comprometido, determinou-se, ainda, que se procedesse à cobrança das quotas junto dos sócios.


O futebol regional e nacional passou, assim, a contar com a dedicação e o empenho da Associação de Futebol do Porto.

Edificio na Rua Antero de Quental, onde esteve instalada a sede social da A.F. Porto