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Recordações, Gratidão e Confiança

 

 

Ao fim de tantos anos (quase meio século) ao serviço desta nobre Instituição, cabe-me deixar um último testemunho do que foi a minha história enquanto homem do desporto, em particular no seio da Associação de Futebol do Porto.

 

Apesar de sempre ter norteado a minha vida por três pilares fundamentais, a família, a justiça e o futebol, hoje, importa falar neste último. Na minha paixão pelo futebol. Desde muito cedo, me interessei por esta fantástica modalidade, tendo iniciado o meu périplo pelo mundo associativo do futebol com os meus trinta e poucos anos. Comecei como chefe de setor de inquiridores da Comissão Regional de Árbitros de Futebol da AFP em 1973, cargo que desempenhei ao longo de quatro anos, a que se seguiu a missão de consultor jurídico na mesma Associação entre 1978 e 1983.

 

Nesse período, o futebol vivia tempos conturbados. Recordo-me perfeitamente de ter acompanhado bem de perto a criação do SINBOL – Sindicato Democrático dos Profissionais de Futebol. Enquanto advogado, coadjuvei José Maria Pedroto, Fernando Vaz, Feliciano e António Morais, entre outros, na defesa dos treinadores nacionais, na luta pela exigência de qualificação profissional, pela assistência judicial em casos de litígio, pela segurança dos seus membros, etc. Foi um trabalho árduo e muito exigente, mas também um orgulho enorme poder privar com tão ilustres personalidades, que tanto fizeram pelo futebol, em geral, e pelos treinadores, em particular. Foram os tempos anteriores à constituição da Associação Nacional dos Treinadores de Futebol (ANTF).

 

No meu longo percurso como dirigente desportivo, surgiu um pequeno “desvio” do mundo do futebol, tendo vivido uma curta experiência como Presidente da Associação de Andebol do Porto e depois como Presidente do Conselho Jurisdicional da Federação Portuguesa de Andebol.(1983-1984)

 

De regresso ao futebol, nas eleições para os órgãos sociais da Associação de Futebol do Porto em 1987 fui eleito vogal do Conselho de Justiça. Não completei o mandato para o qual havia sido eleito, visto ter sido convidado para integrar uma lista às eleições para a Federação Portuguesa de Futebol como Presidente do Conselho de Arbitragem daquele organismo. Saindo vencedora a minha lista, em novembro de 1989, assumi um novo desafio, bastante estimulante e, ao mesmo tempo, complexo, o qual mantive até março de 1991. Passados dois anos, fui convidado para ser perito da Comissão de Transferências dos Jogadores Profissionais da Federação Portuguesa de Futebol, mantendo tais funções até 2007.

 

Entretanto, fui eleito membro efetivo do Conselho Superior do F.C. Porto em 1994, cargo que ocupo até aos nossos dias.

Regressei à Associação de Futebol do Porto em 1999, após ter sido eleito Presidente da Assembleia Geral, sendo reeleito para o quadriénio 2003-2007. Tive, então, o prazer de acompanhar o trabalho desenvolvido pela Direção liderada pelo saudoso Dr. Adriano Pinto, um dirigente que presidiu com esclarecido sentido de dever a nossa Associação, congregando vontades, dinamizando iniciativas, enriquecendo o património e apoiando ideias que se afiguravam fecundas.

 

Em junho de 2007, a morte do Dr. Adriano Pinto abalou a nossa estrutura e o mundo associativo do futebol. Tivemos de ser fortes e estar mais do que unidos num momento de particular sofrimento pela perda do Homem que era o rosto da AFP há mais de três décadas. Novas eleições foram marcadas. Candidatei-me ao lugar de Presidente da Direção e fui eleito. Foi uma vitória esperada, mas, ao mesmo tempo, senti que tinha uma árdua e desafiante tarefa pela frente, que passava por ocupar o lugar de um Homem, de um dirigente com um trabalho notável à frente desta Associação, que sempre estivera na luta e defesa acérrima dos clubes do Distrito, e cuja ação se tinha revelado determinante para a promoção e o desenvolvimento do futebol regional e juvenil. Essa motivação foi determinante para mim.

 

O primeiro mandato passou. Veio uma segunda eleição em 2011 e uma reeleição em 2015, até chegarmos aqui. Por inerência, como Presidente da AFP, fui ainda delegado à Assembleia Geral da Federação Portuguesa de Futebol entre 2007 e 2020, nos termos dos Estatutos e do Regulamento Eleitoral da Federação.

 

Voltando à minha chegada à presidência da Direção da AFP, em 2007, logo na tomada de posse para o meu primeiro mandato fiz questão de trazer à colação a necessidade de revitalizar a vertente associativa, no sentido de que todas as associações de futebol do País se unissem em prol de uma nova dinâmica de ação e de triunfo. Citando o poeta Sebastião da Gama, que dizia que “pelo sonho é que vamos”, eu também sempre fui um homem sonhador, sem limites, determinado, e foi assim que eu e a minha equipa priorizámos a juventude como nosso maior foco de intervenção.

 

Era preciso encaminhar as novas gerações para a prática do desporto, impedindo a exclusão social ou a marginalização e valorizando o ser humano mais jovem. Um bom exemplo disso foram as iniciativas que lançámos em 2009, "A Liga para a Inclusão Social" e o Torneio "A Magia de Futebol de Rua", que têm vindo a contar com a participação de muitos jovens ao longo dos anos. E os números que atingimos nestes treze anos quanto à prática desportiva dos mais jovens, nas mais diversas modalidades que disponibilizamos à comunidade, são inquestionáveis.

 

Na AFP, dirigentes e funcionários sempre se encontraram também em alto rendimento. Não foram só os praticantes, os futebolistas, os treinadores e os árbitros. No nosso trabalho diário, houve, de facto, transcendência, principalmente transcendência moral. Quisemos servir, o melhor possível, não só o futebol da Cidade Invicta e de todo o distrito que a completa, como também o desenvolvimento regional e nacional. Sempre acreditei no futebol não só como um fim em si mesmo, mas também como um meio que incorpora valores em toda a sua prática. No meu entender, os valores de solidariedade, companheirismo, disciplina, coragem, respeito pelos outros e por nós mesmos são a seiva que dá significado e sentido ao “desporto-rei”, ou seja, sempre sustentei que o desporto de excelência não era só uma atividade física, mas também uma atividade moral.

 

Como nos diz o insigne mestre e meu querido Amigo, Professor Manuel Sérgio, “se o futebol é desporto, ele é necessariamente uma instituição educativa e, como tal, deve ajudar todos os agentes do futebol a cuidarem das suas faculdades físicas e fisiológicas e ainda intelectuais, emocionais, políticas, morais. Tornar a pessoa mais pessoa é o objetivo primeiro da prática desportiva. Por isso, no desporto, mais importante que a competição é a solidariedade, mais importante que o prestígio pessoal é a cultura da justiça e da liberdade, mais importante do que as vitórias e as derrotas é a saúde dos atletas…” (Manuel Sérgio, 2014).

 

Foram muitos os momentos marcantes que vivi nestes treze anos de presidência. Não os podendo enumerar todos, destaco, obviamente, um dos dias mais importantes por que esta Associação passou. O dia em que viu as suas instalações ampliadas na Rua António Pinto Machado. Aí instalada desde 1973, o meu antecessor, o meu amigo Dr. Adriano Pinto, tinha o sonho de que tivéssemos uma sede condizente com a nossa grandeza e importância e foi assim que, em 2004, foi lançada a primeira pedra para o início de tais obras. Infelizmente, o meu bom amigo não teve oportunidade de assistir a esse acontecimento.

 

Em meados de outubro de 2008, a nova sede era inaugurada e eu vivi aquele momento, já como Presidente da Direção da Associação, com uma mistura de sentimentos. Nostalgia, por não estar entre nós, naquele dia, o homem que sonhou durante anos com tal espaço e lutou incansavelmente por ele. Realização, pois como nos dizia já o nosso poeta Fernando Pessoa, “Deus quer, o Homem sonha, a obra nasce”, e nasceu…ergueu-se um novo edifício, amplo, moderno, pronto para acolher todos os desafios de uma Instituição como a nossa. Alegria e confiança, por saber que aquele novo espaço nos daria um novo alento para, na senda do que até então tinha sido feito, encetar novos projetos, novos sonhos…um dia inesquecível por várias razões…

 

Ainda neste primeiro mandato, demos continuidade a uma política que tinha sido protocolada com juntas de freguesia e câmaras municipais do distrito no início do século XXI e que passava pela colocação de relvados sintéticos com as medidas 100x64 metros nos campos de jogos de futebol e pela realização de obras nos seus complexos desportivos, no sentido de se criarem infraestruturas de qualidade, como sucedeu, por exemplo, nos balneários, o que naturalmente possibilitou uma maior competitividade desportiva e uma melhoria das condições para a prática desportiva dos atletas. Esta vertente foi transversal a todos os meus mandatos, sucedendo o mesmo com a forte aposta que fizemos em ações de formação de jovens atletas, treinadores, árbitros, massagistas e dirigentes, tendo sido inclusivamente criado um setor específico para a formação.

 

Os resultados desta política surtiriam efeito passado pouco tempo. Nos mandatos seguintes, em 2015, vimos a Federação Portuguesa de Futebol reconhecer o nosso significativo desenvolvimento no futsal, com a atribuição do prémio “Excelência em Futebol 2015 – Investimento no Futsal”, pelo maior crescimento do número de atletas na modalidade (valor absoluto). No ano seguinte, fomos a Associação do País com o maior número de clubes de futebol feminino a participar nos campeonatos distritais/regionais na época 2015-2016 e, por via disso, também a que maior número de atletas inscreveu na Federação Portuguesa de Futebol. Em 2016, a Federação Portuguesa de Futebol atribuiu ainda à AFP o prémio “Mérito e Excelência em Futebol” pelo maior crescimento do número de atletas federados (valor absoluto)

 

Há um outro momento inolvidável. Estar a presidir a esta Associação no momento da comemoração do seu centenário em 10 de agosto de 2012 foi, para mim, uma honra tremenda. Cem anos ao serviço do futebol. Cem anos ao serviço do distrito do Porto e ao serviço de Portugal. Recordo-me perfeitamente de, nesse dia, ter voltado à minha infância, juntando-me aos nossos atletas mais jovens que, defronte da nossa sede, jogavam futebol. Mas o ponto alto dessa comemoração teve lugar no ano seguinte com a realização da Gala Comemorativa do Centenário no Coliseu do Porto, onde homenageámos vários clubes e personalidades, algumas delas a título póstumo, que contribuíram indubitavelmente para o crescimento e para a notabilidade da Instituição.

 

A nível desportivo, além de todas as competições, dos mais diversos escalões que organizámos nestes anos, das mais variadas modalidades, destaco a participação de uma equipa de futebol composta por atletas exclusivamente da Associação para representar Portugal nos IX Jogos Desportivos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), em meados de 2014, a convite da Federação Portuguesa de Futebol. O nosso orgulho foi ainda maior quando esta seleção ganhou o jogo final da competição e conquistou uma medalha de ouro para o nosso País. Neste domínio, assinale-se ainda a introdução do chamado Campeonato de Masters, também conhecido por Campeonato dos Veteranos, no leque de competições da Associação, e o regresso da Taça da AF Porto.

 

Num dos meus discursos, mais precisamente no último em que fui empossado Presidente da Associação, em 23 de maio de 2015, referi-me a duas importantes vertentes e na necessidade de apostar nelas para atingirmos os objetivos por nós idealizados: a continuação e a renovação. Pilares fundamentais para manter de pé uma qualquer obra ou sociedade, foi esse o segredo para as nossas equipas diretivas tão bem trabalharem, já que, com aqueles que continuavam, era possível sorver a sua experiência, adquirida ao longo dos anos, e com os mais novos tínhamos ideias rejuvenescidas, uma maior recetividade aos desafios futuros. Como defendia Charles Darwin, “quem sobrevive, é o que está mais disposto à mudança!”, e a presença de “sangue novo” no seio dos mais experientes trouxe bons resultados à nossa gestão diretiva.

 

A profunda reorganização e ampliação do nosso Museu, a constituição da nossa Biblioteca e a publicação de uma obra relativa à história centenária da AFP foram três iniciativas marcantes do nosso último mandato, deixando-se perpetuada cada página de uma fantástica história desta Associação de referência na cidade, no distrito e no País, bem como todo um acervo do qual fazem parte taças, galhardetes, estandartes, fotografias e outras peças, que permite apreender a riqueza e o dinamismo de uma Associação, sendo este um espaço que comunica com o seu visitante, tornando-o, por isso, num espaço de referência, de reflexão sobre o empenho e a dedicação de milhares de atletas, de treinadores, de corpos médicos, de dirigentes, etc.

 

Desportivamente, continuamos a ser a maior Associação Distrital de Futebol do País, englobando um universo de mais de três centenas de clubes; cerca de 36.000 atletas (dos quais 27.000 pertencem ao futebol e futsal juvenil); um movimento na ordem dos 26.000 jogos por época; um número de árbitros à volta dos 850; e a organização anual de mais de sete dezenas de provas de futebol e futsal. São números impressionantes que nos orgulham e enchem de satisfação.

 

Sempre que possível, procurámos também que cultura e desporto andassem lado a lado. Não foi de estranhar que o auditório da nossa sede enchesse para receber diversas iniciativas de relevo cultural, tais como o ciclo de conferências subordinado à temática “Motricidade Humana e Futebol” (2016) – que daria origem à publicação do livro “Futebol. Ciência e Consciência”, da autoria do Professor Manuel Sérgio,nosso companheiro e Amigo de todas as horas, ao qual a AFP se associou, sendo um dos editores da obra –; o lançamento da obra “Marcação Cerrada – A Vida de um Dirigente”, da autoria de Germano Pinho, Presidente do Padroense F.C. (2016); o colóquio “O Associativismo, uma conquista democrática e o direito de Associação”, organizado por ocasião do nosso 105.º aniversário (2017); e, mais recentemente, o lançamento do “Grande Livro do Futebol Português – Anuário 2018/19" (2019) e da obra “O devir da Lusofonia”, da autoria da Professora Isabelle Oliveira, que tanto tem feito pela lusofonia além-fronteiras e que contou com a presença, para todos nós honrosa e inolvidável, de  um dos maiores filósofos, sociólogo e antropólogo da atualidade, Edgar Morin.

 

Ao longo de duas décadas enquanto Presidente da Assembleia Geral e depois da Direção da Associação de Futebol do Porto, recebemos vários objetos evocativos de um momento ou de uma memória, tendo sido igualmente distinguido, a título pessoal, por diversos clubes que compõem a Associação ou por outras entidades civis. Muitos desses objetos e dessas distinções poderiam ser aqui mencionadas. Mas, creio que ao referir a distinção de Sócio de Mérito da AFP; a medalha de Mérito Profissional, Classe Ouro, “pelos notáveis serviços prestados a Vila Nova de Gaia no domínio da promoção e fomento do futebol não profissional e da prática desportiva”, pela Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, em 2012; o Dragão de Ouro que me foi atribuído por um dos clubes fundadores da nossa Associação, o F.C. Porto, em 2013; o galardão de Mérito Associativo pela Associação das Coletividades do Concelho de Matosinhos, em 2013; e o Padrão de Honra Dourado, em 2018, por ocasião da comemoração do 97.º aniversário do Padroense F.C., ficam assim simbolizados todos os objetos e todas as distinções que me foram sendo atribuídas, motivadas pelas mais importantes e variadas razões, inspiradas pelos mais diversos feitos atingidos pelas minhas Direções, pelos nossos clubes afiliados e respetivos atletas. Em 2020, fui ainda designado membro efetivo do Conselho Geral do Instituto Politécnico da Maia.

 

É ainda na qualidade de Presidente da AFP, que me dirijo hoje, pela última vez, às mulheres e aos homens que servem esta Instituição; aos atletas filiados na nossa Associação e aos treinadores e árbitros aqui formados; e, por último, aos nossos clubes associados, nas personalidades que os presidem, peças fundamentais que deram o melhor de si em nome da Instituição, uma Instituição Centenária, a maior associação desportiva de Portugal.

 

Estou profundamente grato a todos os que me ajudaram e acompanharam ao longo destes anos e, ao mesmo tempo, honrado pela confiança que em mim depositaram para desempenhar tais funções. Juntamente com as minhas equipas diretivas sempre procurámos assegurar a estabilidade e garantir os recursos necessários para que os objetivos da Associação fossem concretizados. Reconheço o contributo das três dezenas de colaboradores que, ao presente, desempenham um papel preponderante no desenvolvimento da Associação, algo que só é possível por estar alicerçada numa sólida e coesa estrutura, disciplinada e bem preparada.

 

Não poderia deixar passar esta ocasião sem prestar um agradecimento muito especial ao Dr. Domingos Santos, secretário-geral da AFP há largos anos. Companheiro de todos os dias, ao longo de cerca de 45 anos, nos bons e maus momentos, felizmente mais bons do que maus, colaborador leal, dedicado e competente, sempre mostrou uma total disponibilidade ao serviço da Associação, desempenhando um papel determinante no seu dia-a-dia em prol do seu bom funcionamento.

 

Estou confiante no futuro da nossa Associação. Estou certo de que o meu sucessor saberá manter a Associação direcionada para o desenvolvimento do futebol distrital, sobretudo, para a formação da juventude nas vertentes desportiva, social e profissional, ou seja, formar os homens do amanhã e para que a Associação continue a ser a maior de Portugal, em instalações, em clubes, em atletas, em número de competições e de jogos, em orçamento, em colaboradores, etc.

 

Neste momento de despedida, a mensagem só podia ser de elevado apreço, de profundo reconhecimento, de esperança e de estímulo. A todos vós, funcionários, dirigentes dos órgãos sociais da Associação e dos clubes afiliados, atletas, árbitros e treinadores, sem esquecer o tributo construtivo que nos foi generosamente dado pela comunicação social, a minha saudação e o meu agradecimento, porque sei bem que o lema que seguis é apenas um: dignificar o futebol não só no distrito do Porto, como no País todo.

 

Muito obrigado a todos por tudo!

 

 

Porto, 27 de maio de 2020

Presidente da Associação de Futebol Porto

José Lourenço Pinto